Sempre tive muita dificuldade em aproveitar a vida. Sempre fui o tipo de pessoa ‘paradoxo’. Eu gosto de ficar em casa, mas me sentia mal por encontrar conforto nisso tão jovem. Sentia que eu deveria aprender a sair e me divertir até porque o tempo não volta. Eu deveria sair adoidada pela minha juventude bêbada, certo? Certo! Porque eu enfim aprendi a fazer isso, e realmente gostei. Mas quando saio, tem sempre um momento, por mais breve que seja onde me sinto deslocada. Breve porque ele pode rapidamente se transformar em horas de dança e diversão, mas eles ainda existem, e sempre me incomodavam. Sinto como se não conseguisse parar de pensar sobre meus próprios pensamentos por um segundo sequer.
Contudo, quando estou em casa, os pensamentos também voltam. Pensamentos que eu não estou aproveitando minha vida como deveria, que estou isolada e me sentindo por fora, eles se amplificam. Sinto mais do que apenas desconforto, eu me irrito comigo mesma por as vezes precisar de um tempo para mim. De as vezes não querer sair, ou querer ficar isolada, depois de tantos anos lutando para me tornar uma pessoa social, não aceito que me cérebro volte a sua configuração original. Um eterno paradoxo de nunca fazer o suficiente não importa o que eu tente. E assim o ciclo continua.
Foi necessária muita terapia para que eu consiga aceitar que tenho limites e não posso me forçar. Preciso e tento continuar me lembrando de que não existe motivo de fazer algo que deverja ser para meu entreterimento em nome de outra pessoa.
Com essa dificuldade absurda de me soltar e o medo patológico de desperdiçar minha juventude, decidi que seria meu novo hobbie romantizar a vida.
propriedade que caracteriza os organismos cuja existência evolui do nascimento até a morte.
tempo que um ser existe, entre seu nascimento até a morte: a vida dos animais.
Sempre tive uma grande dificuldade em acreditar que pensamentos poderiam mudar o rumo do meu dia, e apesar de crer que ações falam mais alto do que palavras, palavras também ajudam um pouco. Coloquei na minha cabeça que gostaria da vida na marra. Eu só… estava decidida a não ser mais triste.
Não posso afirmar que isso foi infalível (não foi), mas deu certo. Decidi que seria otimista pelo menos na atitude. O famoso ‘fake it till you make it’. É tratar cada experiência, por menor que ela possa parecer, como algo que me levará à euforia, algo que me mudará como pessoa. Como se qualquer conversa, qualquer rua, qualquer livro ou qualquer dia noite tivesse o potencial de me transformar um pouco.
E, quando eu estivesse sozinha em casa, eu lidava com a minha melâncolia - coincidência ou não foi nessa época que minha newsletter nasceu. Tenho minhas ressalvas sobre viver à base da performance, mas nesse caso deu certo, não sou necessariamente um raio de felicidade, mas com certeza sou menos triste. Já é um começo.
‘Vida, os pobres poetas julgaram-te amarga, mas não saíram da cama contigo com o vento do mundo.’
- Ode à vida, Pablo Neruda
Quando eu me refiro a ‘começar a viver’ digo do modo bem tradicional mesmo. Se você é como eu e se identificou com o que falei sobre ficar em casa, ainda mais jovem, você precisa sair de casa. É tão simples quanto isso. Não se pode viver sozinho. Por mais assustador que possa parecer, a vida é feita de pequenos momentos, onde você percebe que ela pode ser sim boa. Naturalmente eles são passageiros, mas isso não faz deles menos reais. A maior dica que tenho sobre aprender a viver é aceitar que é você vai construir a sua própria vida, e não será na base do conforto.
Penei muito para aceitar isso, e ainda não digeri totalmente esse fato confesso. Contudo, acredito que o conforto seja o inimigo da vida. Nada é vivido quando se está confortável. Nossa sociedade já nos obriga a viver vidas tão monótonas, ainda mais nesse mundo capitalista, onde somos criados para trabalhar gerando lucro para outros ao invés de nos mesmos. Onde precisamos desistir de parte de nos mesmos porque não são dignas do ‘mercado de trabalho’. A arte já é desvalorizada, a escrita e pensamento crítico agora em cheque graças a inteligência artificial. Não só isso, temos um prazo social no qual sair adoidado com seus amigos ainda é aceitável (16 aos 27, eu diria). E, mais importante, atualmente vivemos com o estanho movimento de adolescente que insistem que são mais velhos do que realmente são e tentam ao máximo trazer para si responsabilidades e vivências que deveriam acontecer dos 25 para cima. Parece que esquecemos as multifaces da vida.
Começar a viver é um passo a passo eterno. Arrisco dizer que começa quando você descobre o seu primeiro hobbie. Começa com você descobrindo uma paixão, mesmo que não possa segui-la, começa com você entendendo que gosta de fazer algo, não para produzir, mas porque o simples ato te traz alegria e paz. Começa com a primeira vez que você encontrou seu grupo de pessoas. Começa quando você tomou um porre, a primeira vez que você teve que arrastar seus amigos para fora de uma festa porque eram eles que tinham tomado um porre. Começa com você lendo um livro e descobrindo que simples palavras te mudaram como pessoa e ficaram com você para sempre. Começa com você se arriscando para a pessoa que você gosta, porque, senão agora, quando?
‘A vida, a respondeu com sua presença viva. E não há melhor resposta que o espetáculo da vida: vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica que ela mesma, teimosamente, se fabrica, vê-la brotar como há pouco em nova vida explodida.’
- Morte e Vida Severina, Jorge Cabral de Melo Neto
O começo da vida é cheio de primeiras vezes. Ela nunca começa sozinha, é preciso continuar a encontrando deliberadamente, como quem aprende uma língua ou oração.
Se você gostou ou se interessou pelo que escrevi aqui, recomendo esse incrível texto de @aamandasteyer, que me deu a ideia de fazer escrever algo sobre esse ‘começar a viver’ e deixar pra trás quem você foi antes.




Identifico-me bastante com o seu artigo. É um caminho penoso, especialmente quando temos noção do que precisamos de fazer para melhorar, dar o passo e sair de casa, mas simplesmente não conseguimos realizar a ação. E vivemos nessa prisão criada por nós, com constantes pensamentos do que poderia ser, do que é.